Blog do Ivan Ferraz


Trinta anos

            - “Você viu? Mudou tudo na economia. Amanhã os bancos não irão abrir, está proibido aumentar os preços e a nossa moeda agora se chama ‘cruzada’” – disse um amigo meu que eu havia ido visitar naquela noite de 27 de fevereiro de 1986.

            Não,  eu não sabia de nada – não havia celular e internet naquela época – e ouvia atônito aquele relato. Pensei: “Logo agora?”.

 

 

            No dia 28 de fevereiro de 1986, Dilson Funaro – ministro da Fazenda da época – e sua equipe, sob as bênçãos do presidente José Sarney (sim, ele mesmo) lançavam o Plano Cruzado. Este plano constituía-se numa tentativa desesperada de controlar a inflação no Brasil que, no ano anterior – 1985 –, havia atingido 242,23% (!). Os preços estavam congelados e a moeda passava a se chamar “cruzado” (e não “cruzada”, como o meu amigo havia me dito).

            Apesar do sucesso inicial e do imenso apelo popular que o plano incitava (lembram-se dos fiscais do Sarney?), ele fracassou. Em 1987, a inflação atingiu inacreditáveis – para as novas gerações – 363, 41% no ano (mas a situação iria piorar).

 

 

            Guardo esta data com especial carinho, mas não foi pelo Plano Cruzado. Após quatro anos e dois meses, o dia 28 de fevereiro de 1986 foi o meu último de trabalho na Cofap. Neste dia, deixava para trás um passado operário e – talvez - de poucas perspectivas. Partiria para novas aventuras, apesar dos planos econômicos mirabolantes do governo.

Sem saber, estava cometendo o maior ato de rebeldia de minha adolescência: eu iria estudar. Sim, pois o maior ato de rebeldia que um estudante pobre pode fazer é estudar.

E nesses trintas anos muita coisa mudou. Acho que o resultado foi positivo. Acho. E nesses trinta anos, conheci muitas pessoas e dentre as muitas que me ajudaram, encontrei os irmãos que escolhi pela vida: os amigos.

E essa jornada foi facilitada pela presença – física ou em minhas lembranças – de vocês.

Muito obrigado!

Que venham outros 30 anos...


Foto do dia


Sem título (2014)

Autor: Ivan Savioli Ferraz

 

 



Escrito por Ivan Ferraz às 17h45
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19 de agosto: dia mundial da fotografia

Só para não deixar em branco no meio da correria: hoje é o dia mundial da fotografia!


Foto do dia

Fachada da Catedral de Lima (Peru) - 2014

Autor: Ivan Savioli Ferraz



Escrito por Ivan Ferraz às 20h37
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Vende-se uma padaria

Imagine a seguinte situação: você decide abrir uma padaria. Estuda com cuidado a escolha do ponto. Informa-se sobre o capital necessário para abrir o seu tão sonhado negócio. Faz as contas de suas economias dos últimos anos e chega à conclusão de que é possível abri-la. Agora, a parte final: a contratação dos funcionários. Você entrevista os candidatos e os escolhe com todo o cuidado para trabalhar ao seu lado. Pronto: padeiros e seus auxiliares, balconistas e faxineiras são contratados.

Após algumas semanas do início de seu trabalho na padaria, você percebe que o pão do padeiro não é nada bom, seu auxiliar se ausenta do trabalho com frequência pelos motivos mais banais e as balconistas não são educadas com os clientes. Então, tentando mostrar-se uma pessoa sensível e compreender a situação, você conversa com a sua equipe e expõe as dificuldades observadas. Entretanto, nada muda.

Vamos complicar um pouco mais a situação para você. Na sua padaria, todos os funcionários possuem estabilidade de emprego: eles não podem ser demitidos, a não ser em situações extremamente excepcionais (mesmo assim, nestas ocasiões “excepcionais”, os casos serão julgados por um tribunal trabalhista e a demissão poderá ser revertida e você, multado).

Não é necessário ser um visionário para prever qual será o fim de seu negócio, correto? E ainda bem que esta é uma situação hipotética, não é mesmo?

Infelizmente, não é bem assim. Várias “padarias” deste tipo são sustentadas por você - sofrido contribuinte - em nosso solo tupiniquim. E essas “padarias” atendem pelo nome de escolas, serviços de saúde, postos de atendimento da previdência social e da receita federal, cartórios eleitorais, bancos (!) etc. etc. etc. Como você pode perceber, estes serviços abrangem – em maior ou menor grau - todos os níveis de atuação da administração pública, isto é, o municipal, o estadual e o federal.

Não vou me ater a já tão discutida baixa qualidade da maioria dos serviços públicos. Mas, ao lado dos inúmeros fatores que contribuem para esta qualidade, com certeza, a estabilidade de emprego dos funcionários concursados é, com certeza, um deles.

A estabilidade de emprego dos funcionários públicos não é exclusividade do Brasil. Entretanto, em países como, por exemplo, os Estados Unidos, ela é mais restrita e flexível, isto é, funcionários públicos podem ser demitidos em casos de cortes orçamentários, indisciplina e baixo rendimento do trabalhador (sim, no Brasil estas mesmas causas podem ser usadas para justificar o desligamento do trabalhador, mas a burocracia titânica, o corporativismo e a cultura paternalista diante destas situações dificultam de forma extrema o processo).

Entretanto, devemos ter cuidado com as generalizações: funcionário público com estabilidade no emprego não é sinônimo de baixa produtividade. Conheço inúmeros exemplos que me provam o contrário. Mas, numa outra situação hipotética, imagine se setenta por cento dos funcionários de uma empresa trabalhassem de forma competente, os outros trinta por cento não comprometeriam o funcionamento da máquina se agissem de forma indolente?

A segurança de dificilmente perder o emprego – juntamente com outros motivos, obviamente - está na base de certos abusos cometidos por estes trabalhadores. Um exemplo: a recente greve dos metroviários da cidade de São Paulo. Ainda que considerada ilegal e abusiva, os metroviários (uma minoria, provavelmente muito menos do que “aqueles trinta por cento indolentes”) desafiaram (menosprezaram?) a Justiça e continuaram a greve. A principal pergunta é: quem paga a conta destes excessos no final? Quem responde por isto?

Para não dizer que eu pretendo demonizar a estabilidade de emprego, creio que ela seja realmente necessária para alguns cargos tais como promotores de justiça e juízes. É justo lembrar também que nem todo funcionário público possui estabilidade no emprego.

Precisamos repensar isto. Afinal de contas, o termo “funcionário público” significa o trabalhador que serve o povo (e eu completo: pago pelo povo). Desta forma, se quisermos construir um país sério e eficiente, precisamos, entre outras coisas, criar formas efetivas e inteligentes de fiscalização dos serviços públicos.

Até a próxima.

 

Em tempo: Parabéns pelos 10 anos da conquista da Copa do Brasil de 2004, RAMALHÃO!

 

Foto do dia


Detalhe da cúpula do Teatro Amazonas (Manaus, AM) - 2013

Autor: Ivan Savioli Ferraz




Escrito por Ivan Ferraz às 21h57
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Aniversário de Santo André

Parabéns, minha querida Santo André!

A sua idade é controversa. Muitos estudiosos de sua história afirmam que a cidade de hoje não foi originada pela vila fundada por João Ramalho em 8 de abril de 1553. Após ser destruída pelos índios tamoios, esta vila de João Ramalho teria ficado abandonada por quase três séculos. A mesma só ressurgiria em fins do século XVIII e com outro nome: São Bernardo.

Após 27 anos de separação, a cidade me continua estranhamente familiar. É para lá que, muitas vezes, a minha mente se refugia em momentos de tristeza, buscando forças - especialmente - nas nostálgicas lembranças da infância e da adolescência.


Até a próxima.

 

"Andando por aí em Santo André" (2011)

Autor: Ivan Savioli Ferraz



Escrito por Ivan Ferraz às 22h42
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O filhocentrismo

Atualmente, quem lida com crianças - e mesmo quem não lida - já deve ter notado uma mudança - deletéria - no relacionamento dos pais com os seus filhos. Em muitos lares, crianças agem e são tratadas como verdadeiros reis pelos seus pais, em uma relação denominada "filhocentrismo" - a criança torna-se o centro de tudo. Claro, muitas vezes este tipo de comportamento se reflete nas escolas, nos consultórios e nos demais locais frequentados pelos reizinhos.

Apesar de parecer até certo ponto natural, este fenômeno é relativamente novo. Tentarei dar a minha visão sobre isto.

Até o início da Revolução Industrial, a expectativa de vida na Europa não passava dos 35 anos de idade e a mortalidade infantil era elevadíssima. As crianças não participavam da vida social de sua família até os sete anos de idade, quando, então, entravam para o mundo dos adultos (reparem: sem direito à adolescência, que também é um fenômeno relativamente recente na história do homem). Com este cenário, a ligação dos pais com seus filhos não era das mais robustas. Além disso, até então, o filho homem seguiria a profissão de seu pai (que também havia seguido a do avô) e a menina iria se juntar à mãe para adquirir habilidades nas prendas da casa.

Com o advento da Revolução Industrial, o cenário começou a mudar lentamente. Já era possível não seguir a profissão do pai e do avô. Havia a possibilidade da mobilidade social. E investir na educação dos filhos seria um meio possível para avistar alguma mudança no futuro (e é a partir de então que, provavelmente, tenha surgido os primórdios da ideia moderna de adolescência). 

A expectativa de vida aumentava e a mortalidade infantil caía.

No final de século XIX, a publicação do livro "A origem das Espécies" pelo naturalista britânico Charles Darwin - que defendia a teoria da seleção natural, propondo que, entre outras coisas, o homem descendia de um ancestral comum a todas as outras espécies e não de Adão e Eva - contribuiu para estremecer ainda mais a fé na criação divina; esta crença já havia sido seriamente abalada há mais de um século, com o movimento do Iluminismo.

Já não se tinha certeza absoluta da existência da vida eterna. Os filhos passaram a ser a esperança da continuidade na vida terrena após a nossa morte.

No século XX, em especial na sua segunda metade, ocorre uma nova mudança na dinâmica das famílias ocidentais: devido a pressões econômicas e clamando por sua independência, a mulher começa a trabalhar fora de casa. Os filhos passam a ser cuidados por terceiros.

Paralelamente a isto, com o aumento da pujança e do poder econômico das famílias, surgem novos desejos. Junto com os desejos, emergem também as frustrações. Daí a projetar a realização das nossas frustrações nos filhos seria um passo.

Permanecendo menos tempo com os seus filhos, os pais passam a se sentirem culpados "por não lhes dar mais atenção do que precisariam e/ou deveriam". Assim, passam a trocar a qualidade do afeto pela quantidade de presentes como forma de compensação: "afogam" os seus filhos com bens materiais e evitam a qualquer custo que eles sofram alguma frustração. 

Com tudo isso, o caldo de cultura para o surgimento do filhocentrismo estava pronto (e o surgimento do "eterno adolescente" - primo do filhocentrismo - também).

Mas os pais podem se perguntar se eles não têm o dever de proteger os seus filhos e onde estaria o erro nisto. Claro, proteger é imprescindível, mas não se deve confundir este tipo de proteção com o filhocentrismo. Este ultrapassa em muito aquela e tem consequências desastrosas. Crianças de pais "filhocêntricos" tendem a possuir pequena margem para suportar frustrações e vivem numa Disneylândia onde reinam soberanos.

A grande pergunta é: será realmente saudável - e justo - preparar as nossas crianças para um mundo que não existe?

Reflitamos.

Até a próxima.

Foto do dia

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Andando por aí (Bonfim Paulista - 2013)

Autor: Ivan Savioli Ferraz



Escrito por Ivan Ferraz às 19h44
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19 de agosto - Dia Mundial da Fotografia

Dezenove de agosto: hoje é o Dia Mundial da Fotografia!

Desde a primeira fotografia que se tem notícia no mundo, tirada pelo francês Joseph Nicéphore Niépce em 1826, após oito horas de exposição, passando por outro francês, Louis Jacques Mandé Daguerre, que revolucionou o processo fotográfico diminuindo o tempo de revelação das fotos, o ato de fotografar passou, ao longo dos anos, de mera diversão e curiosidade para um estado de arte verdadeira.

Grandes personagens da história da fotografia: de Marc Ferrez, que em suas chapas de vidro deixou eternizado o Brasil do final do século XIX e início do século XX, passando por George Eastman, que em 1888 popularizou a máquina fotográfica portátil ("Você aperta e nós fazemos o resto" - dizia o anúncio de sua máquina Kodak), mas não se esquecendo do lendário fotógrafo de guerra, o húngaro bon vivant  Robert Capa, único a registrar o desembarque das tropas aliadas na Normandia no dia 6 de junho de 1944, o dia "D": graças a ele pudemos ter uma leve ideia da atmosfera infernal daquele momento.

Mas, além de nos trazer a realidade (boa ou má) até nossas casas, não podemos nos esquecer de fotógrafos que colocaram a fotografia em um patamar mais elevado do que o simples registro de imagens. Como não falar de Henri Cartier-Bresson, o fotógrafo francês do "momento decisivo", com suas fotos de beleza delicada e singular. E como negar a categoria de arte para a fotografia depois de conhecer o trabalho sensível e de raríssima beleza do brasileiro Sebastião Salgado?


A todos estes fotógrafos que, com sua arte, contribuíram e contribuem para diminuir o peso de nossa caminhada neste pontinho azul no meio do nada, o meu agradecimento.


E a todos os outros fotógrafos do mundo, sejam eles profissionais ou amadores, ocasionais ou habituais, parabéns!


Foto do dia

Andando - e fotografando -  por aí em São Paulo (2013)

Autor: Ivan Savioli Ferraz



Escrito por Ivan Ferraz às 23h05
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Reclamar do quê?

O assunto já está até meio batido, mas gostaria de dar o meu pitaco a respeito das manifestações que ocorreram (e continuam ocorrendo) por todo o Brasil.

Como todos sabem, as primeiras manifestações tiveram origem em junho na cidade de São Paulo. Os protestos eram contra o aumento das passagens de ônibus e se acentuaram após a repressão policial que ocorreu. A partir daí, as manifestações se alastraram pelo país afora e agora, elas não eram "mais pelos vinte centavos de aumento nas passagens de ônibus, mas contra tudo". Contra tudo? Como assim? Confuso, não é?

Dentre todas as reivindicações que fizeram os manifestantes irem para a rua, algumas me chamaram atenção. Não pelo seu conteúdo em si - justos -, mas pelo seu contexto. Explico.

Por exemplo: muitos pediram a saída do senador Renan Calheiros da presidência do Senado, tendo em vista o seu "currículo" na vida pública. Mas, uma pergunta não quis (e não quer) calar dentro de mim: qual foi o meio pelo qual o dito político chegou ao Senado e lhe deu chance de, por consequência, presidir o mesmo? Se eu não estiver enganado, foi através do voto, não foi? E quem votou nele? Os babuínos das savanas africanas? Ou os ETs de Varginha? Só para refrescar as memórias: Renan Calheiros teve 840.808 votos dos alagoanos na eleição de 2010 que o reconduziu ao Senado Federal (mas não se estarreçam por pouco: no Pará, Jader Barbalho, que saiu pelas portas dos fundos do Senado Federal em 2001, foi reeleito nas mesmas eleições de 2010 com 1.799.762 votos!).

Outra reivindicação que me causou surpresa foi a questão do Brasil como sede da Copa do Mundo de Futebol-2104 e seus estádios superfaturados, aqueles dos "padrões FIFA". Mas, não houve muita comemoração e ufanismo em nosso país em 2007, quando da escolha do Brasil para sede da Copa do Mundo-2014? Ou estarei enganado de novo?

E na esfera nacional: das mais de um milhão de pessoas que foram às ruas protestar "contra tudo" no dia 20 de junho, quantas votaram em Dilma? 

Para não dizer que eu cito apenas a sujeira do quintal alheio, tomo o exemplo da cidade onde vivo, Ribeirão Preto (SP). Aqui também houve manifestações - com um triste saldo de um jovem morto durante os atos.  De forma semelhante ao restante do país, havia muitas reivindicações, mas uma, em especial, chamou-me a atenção: o "Fora, Darcy!" (Darcy Vera é a atual prefeita da cidade, reeleita na última eleição). Estima-se que vinte mil pessoas tenham participado da maior das manifestações que ocorreram em Ribeirão Preto. Pergunto: quantas destas pessoas votaram na prefeita na última eleição? Ou será que foram para rua apenas as pessoas que não votaram nela? Mas, de novo, a pergunta que não quer calar: por que não tiraram a prefeita no voto em outubro último? Por que deram uma nova chance à Darcy mesmo sabendo que ela era (e continua sendo) o chefe do executivo mais inepto que passou pela prefeitura no último quarto de século pelo menos?

Em todos os exemplos acima (haveria muitos outros), quem que viveu neste país nos últimos anos e leu os jornais (ou outro meio de informação que o valha) pelo menos uma vez por semana não conhecia Renan Calheiros (refrescando novamente a memória: RC foi assessor de Fernando Collor - outro que voltou "no voto" ao Senado Federal - nas eleições presidenciais de 1989) e Jader Barbalho? Quem não ouvia que os estádios da Copa estavam custando muito mais do que o planejado e que muito - mas muito mesmo - dinheiro público estava sendo derramado em tais obras, apesar das promessas iniciais em contrário? Para que servem os protestos agora que estamos com estádios quase prontos e há menos de um ano do início da Copa? Quantos não sabiam da hipocrisia e da ficha corrida (alguém falou em mensalão?) do partido de Dilma e do fato de que ela era cria do barbudo paradoxalmente populista-elitista (não confunda com etilista) e chefe da quadrilha, ops, digo, do Partido dos Trabalhadores? Quem, em Ribeirão Preto, não sabia da inépcia administrativa da prefeita e o do rombo nas contas públicas que estava se formando? 

A minha pergunta: reclamar do quê?

Eu sei que este tipo de análise pode ser algo rasa. Talvez a insatisfação estivesse represada e um fato - no caso, o aumento do preço das passagens de ônibus e a repressão policial - tenha acendido o fósforo na atmosfera de gasolina. Realmente, não é qualquer povo que aguenta de forma pacífica, por tanto tempo, uma justiça indolente (com uma consequente sensação de impunidade), impostos extorsivos, serviços públicos precários, altíssimo custo de vida e uma classe política que parece viver em outro planeta, alheia à realidade cotidiana da esmagadora das pessoas. Entretanto, na minha opinião, as manifestações carecem de foco. Eu não sairia às ruas para protestar "contra tudo", mas talvez ficasse vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, numa manifestação a favor da melhoria da educação (principalmente, a básica) neste país (e lembro que, em relação a este assunto, TODOS têm a sua parcela de culpa, talvez em diferentes proporções: governo, professores, pais e alunos; não há santos nesta situação. A questão vai bem mais além do que a melhoria dos salários dos professores e da diminuição do número de alunos nas salas de aula: o assunto é muito complexo e exige que as pessoas que estejam envolvidas no processo de melhoria sejam conhecedoras da matéria e isentas - de coorporativismo, principalmente).  Não adianta fugir: só se muda um país através da melhoria da educação (manifestações ajudam, mas não resolvem o problema; e manifestações com pessoas de bom nível educacional talvez sejam "mais eficazes" e focadas). Não se conhece outro caminho - pelo menos, atualmente (se alguém tem dúvidas sobre o que eu estou falando, procure conhecer a história da Coreia do Sul nos últimos quarenta anos).

Para finalizar, quero deixar claro que não sou contra as manifestações.  Mas, além de minha dúvida contra a sua real eficácia a longo prazo quando se protesta "contra tudo", outro fato me incomoda nelas (claro, ao lado do lamentável vandalismo): o fato de muitas pessoas não exercerem a cidadania nas suas próprias comunidades (ruas, bairros, cidades, trabalho etc). Quantos dos manifestantes não respeitam as mais elementares regras de trânsito? Quantos não dão um jeitinho para se safar de situações irregulares ou, por exemplo, passar na frente de outra pessoa na fila do caixa do supermercado? Conseguir (ou emitir) um atestado médico fajuto para justificar a ausência na escola ou no trabalho? Bom, a lista é infindável.

Ao lado de manifestarmos "contra tudo", talvez também seja necessário olhar para o nosso quintal. A "revolução" começa em casa. 

Para sintetizar: sem educação não se muda - definitivamente - um país. Com educação teremos mais cidadania. E, talvez, menos Calheiros, Barbalhos, Collors e Darcys (e, por consequência, menos manifestações)...

Até a próxima.


Foto do dia


Cristo Redentor, Rio de Janeiro (2013)

Autor: Ivan Savioli Ferraz



Escrito por Ivan Ferraz às 22h37
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Os afogados e os sobreviventes

Quando da tragédia de Santa Maria (RS) em janeiro deste ano, alguns sobreviventes relataram um sentimento de culpa por terem escapado ilesos (ou quase) do incêndio. Mesmo entre aqueles que conseguiram resgatar outras pessoas com vida, houve relatos do sentimento de culpa alimentado pela lembrança dos rostos dos jovens que suplicaram em vão pelo socorro.

Primo Levi, escritor ítalo-judeu, em seu livro “Os afogados e os Sobreviventes”, também descreveu o sentimento de culpa que carregavam muitos dos sobreviventes dos campos de concentrações nazistas na segunda guerra mundial. Para corroborar esta observação, uma constatação, no mínimo, intrigante: ao contrário dos tempos pós-libertação, os casos de suicídio de prisioneiros nos campos de concentrações eram raros.

Por que sentimos tanta culpa? Como na música “Para Noia” de Raul Seixas, quem nunca sentiu uma culpa de eu não sei de quê”?

Não é minha intenção dissecar esta questão. Longe disso, pois não sou “expert “nos meandros da mente humana. Mas tentarei escrever um pouco da minha visão de leigo.

Crescemos num mundo cheio de regras e desde a mais tenra idade o nosso cérebro é moldado por elas. Muitas (aliás, a maioria) destas regras impõem limites aos nossos desejos e diante disso, temos de abdicar deles. Consciente ou inconscientemente, o sentimento de culpa pode até nos ajudar a reprimir alguns desejos “sujos” (lembram-se do “Complexo de Édipo”?) ou impossíveis para a maioria dos mortais (viver a vida “na flauta”, sem lenço e sem documento). Ou ainda, a culpa pode aparecer quando temos a impressão – real ou imaginária – de que não cumprimos o nosso papel de forma satisfatória (resgatou vinte pessoas do acidente, mas havia trinta e cinco? Planejou perder três quilos até o final do ano, mas ganhou dois? Eis o fantasma da culpa cutucando o nosso ombro, “acusando” – desculpem-me pelo trocadilho – a sua presença).

Entretanto, sinto que nos tempos atuais, este tipo de sentimento parece dominar as nossas vidas muito mais do que gostaríamos ou admitimos. Arrisco-me a dizer que a causa deste fenômeno seja a liberdade que o homem moderno adquiriu (lembrem-se de que a maior parte dos seres humanos que viveram na Idade Média não possuía nem cinco por cento das possibilidades – sejam elas de locomoção, mobilidade social, sexual etc  – do que temos hoje). Diante de tantas possibilidades (e, claro, desejos) reprimidos,  a culpa muitas vezes parece onipresente (e, de braços dados com ela, a ansiedade).

Além disso, não se pode esquecer do papel das religiões na conta do sentimento de culpa. Através de suas doutrinas e regras, elas impõem outros mecanismos de repressão aos nossos desejos e limites (por exemplo, o uso do sexo apenas para fins de procriação).

Independente das razões, nós estamos condenados a tal sentimento enquanto estivermos vivos: o ser humano é o único animal a sentir culpa.

 

Até a próxima.

 

 

Foto do dia


"Prédio Central da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP”  (2009)

 Autor: Ivan Savioli Ferraz



Escrito por Ivan Ferraz às 21h52
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Ray Manzarek (1939-2013)

Acabo de saber do falecimento de Ray Manzarek, tecladista e um dos fundadores - juntamente com o mito Jim Morrison, morto em 1971 - de uma das maiores bandas da história do rock'n'roll, o "The Doors".

É engraçado: nunca o vi pessoalmente (tive até a oportunidade em fazê-lo em 2009 quando ele e outro componente do "The Doors", Robby Krieger, vieram se apresentar em Ribeirão Preto, mas eu estava viajando), mas experimento agora uma sensação de tristeza. Um sentimento de como se alguém próximo e querido tivesse partido.

Apesar da banda não ser minha contemporânea, o "The Doors" fez parte (e como!) de meus tempos de faculdade e até hoje as suas músicas e letras me cativam. Foi através do "The Doors" que cheguei até a um dos livros que mais sacudiram as minhas ideias e conceitos: "As portas da percepção", de Aldous Huxley. Explico: o nome da banda, "The Doors", foi inspirado no título do livro em inglês, "The Doors of Perception" (aliás, há uma excelente caixa com todos os CDs de estúdio remasterizados do "The Doors" que se chama "Perception").

Junto com a notícia da morte de Manzarek, sou tomado por uma sensação de que estou ficando velho. Há alguns anos, os meus heróis morriam de overdose; hoje, de câncer.

A fila anda. A obra fica.

Valeu, Ray Manzarek!



Escrito por Ivan Ferraz às 20h34
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Lots of fun


Há vários anos, li o livro “A cidade vazia” de Fernando Sabino. Neste livro de crônicas, o autor descreve as suas experiências e sentimentos durante o período em que viveu em Nova Iorque, na segunda metade da década de 1940.

Em uma dessas crônicas (“Mecânica da distração”), Sabino descreve a sua visão do modo peculiar do americano de se distrair e de se divertir. De forma simplificada, Sabino escreve que, para um americano, uma diversão só teria valor se ela proporcionasse “lots of fun”. Porém, como o próprio Sabino escreve no texto, definir “lots of fun” não é fácil. Entretanto, estava explícito que para obtê-lo era imprescindível que você possuísse algo material, palpável, que mostrasse aos outros de que você havia aproveitado ao máximo a situação que havia lhe proporcionado o “lots of fun” (mesmo que isto não fosse a verdade). Poderia ser uma fotografia, um souvenir (por exemplo: um guardanapo daquela casa noturna badaladíssima ou um autógrafo de uma celebridade que esteve no mesmo local que você). Isto provaria a você e (principalmente) aos outros de que houve “lots of fun”.

Esta crônica de Sabino sempre me vem à mente quando visito as páginas do Facebook. Seja nas fotos do perfil ou nas mensagens (muitas delas também com fotos) ali postadas, a impressão que tenho ao vê-las é que a intenção é quase sempre mostrar que se está tendo ou se teve “lots of fun” (novamente: mesmo que isto não seja a verdade).  Foi a um restaurante badalado? Registre a sua entrada no Facebook. Fez a viagem da moda? Não perca tempo: tire a foto com o Mickey (preferencialmente com o castelo da Bela Adormecida ao fundo) e poste no Facebook!

Tenho a impressão (ou quase a certeza) de que o modo dos americanos encararem a diversão na década de 1940, como descrito por Sabino, não era muito diferente do resto do mundo, como também não o é hoje (lembro-me que até há não muito tempo, uma forma de “provar” aos outros que você tinha tido “lots of fun” durante o período das férias, era voltar delas com a pele “tostada” pelo sol, mesmo que isso lhe custasse alguns dias de sofrimento com as queimaduras – isto, sem falar nos riscos que este tipo de comportamento acarretava). Afirmo isto por um motivo muito simples: como bem observou o psicanalista Contardo Calligaris na sua coluna da Folha de São Paulo de 23 de setembro de 2010, “Felicidade nas telas”, somos cronicamente dependentes do olhar dos outros.

É assim desde o início de nossas vidas. No começo, precisamos da aprovação dos olhares de nossos pais; na escola, os dos colegas; na adolescência, (desesperadamente) dos componentes da turma; na vida afetiva, de nosso(a)s companheiro(a)s; na vida profissional, dos colegas de trabalho. E seria possível comportar-se de maneira diferente? Não possuo esta resposta (será que alguém a tem?), mas, a minha impressão é que não...

Bom, antes que me acusem de hipócrita: uso o Facebook para divulgar (sem sucesso!) o meu blog e as fotografias que tiro, muitas delas realizadas em viagens.

Também sou cronicamente dependente do olhar dos outros.

Até a próxima.

 

Foto do dia

"Paraty (RJ)" (2010)

 Autor: Ivan Savioli Ferraz



Escrito por Ivan Ferraz às 19h40
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Santo André: 460 anos

Santo André: o que para mim poderia ter sido e não foi. Parabéns pelos seus (controversos) 460 anos!



Escrito por Ivan Ferraz às 22h16
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Impostos e doações: algumas pequenas reflexões sobre o tema

Há pouco mais de um mês, fui abordado por um jovem rapaz nas proximidades de uma das estações do metrô em São Paulo. Este rapaz tinha em sua camisa um crachá de uma conhecida entidade brasileira. De forma simpática e cordial, perguntou-me o que eu poderia fazer para "tirar uma criança das ruas e fazê-la feliz". Já sabendo aonde o rapaz queria chegar, respondi-lhe que não saberia exatamente o que fazer para tirar uma criança da rua, mas que, sendo pediatra, provavelmente eu teria conhecimentos de como ajudá-las de alguma forma. Surpreso, o jovem rapaz disse que eu "já deveria ajudar muito as crianças em virtude de minha profissão".  Concordei e para encurtar o "bate-papo", disse a ele que eu não doaria nenhuma quantia pois "eu pagava anual e religiosamente o imposto de renda esperando, entre outras coisas, não ser abordado por ninguém na rua pedindo doações a criancinhas, velhinhos, cãezinhos, gatinhos, baleias, golfinhos etc etc etc". Desconcertado, o jovem rapaz diz que respeitava a minha posição e deixou-me ir em paz.

Retrocedendo um  pouco mais no tempo: duas semanas antes do carnaval deste ano, recebi uma ligação de uma pessoa da qual tenho muito apreço. Esta pessoa, muito religiosa, convidava-me a participar de uma expedição organizada anualmente por sua igreja, durante a semana do carnaval, junto à população ribeirinha do Rio Amazonas e seus afluentes. A minha participação resumir-se-ia em ser o médico da expedição. Felicitando-lhe pelo gesto altruísta e pela iniciativa de sua participação, agradeci a lembrança de meu nome, mas declinei do convite em virtude de outros compromissos já assumidos. Mas, não pude resistir a uma observação: por que, além de levar mantimentos, remédios e ajuda médica esporadicamente a estes ribeirinhos, a expedição não encorajava a população a EXIGIR do governo local a implantação de uma equipe de saúde para que o atendimento fosse realizado durante o ANO INTEIRO? Não seria mais lógico do que depender de abnegados eventuais? Senti que a minha conversa ao telefone tornou-se um pouco azeda, sendo encerrada com um obrigado seco de ambas as partes. Mas, mais uma vez, implicitamente, estava a pergunta: qual o destino do dinheiro recolhido nos impostos pagos por nós?

Paramos, realmente, para pensar nisso? Para atiçar um pouco a sua mente (e a sua indignação): chegamos a pagar no Brasil 106% a mais no preço de um MESMO automóvel vendido na Europa e nos Estados Unidos. A carga tributária média dos automóveis brasileiros é de 32% do valor total do veículo; no exterior, este valor é de 16%. E para lhe deixar um pouco mais exasperado, a margem de lucro das montadoras no Brasil é o dobro daquela praticada no resto do mundo. Será que ouvi alguém falar "otário" aí do outro lado?

Quero deixar claro que não sou contra as doações ou o trabalho voluntário. É claro que eles são muito bem-vindos. Nos Estados Unidos, é comum que alunos egressos de instituições de ensino superior façam doações as mesmas, o que é extremamente louvável. Porém, creio que este tipo de ação em nosso meio deva ser acompanhada de uma reflexão mais demorada. Algumas perguntas devem ser feitas. Estamos REALMENTE contribuindo para que a situação melhore num prazo mais longo? E a quem estamos ajudando?

Temos de ser doadores e voluntários conscientes. Caso contrário, o populismo (e os populistas de plantão) aproveitar-se-ão destas situações mantendo este quadro de dependência de muitos para interesse de poucos. Concorda?

Até a próxima.


Foto do dia

 

Interior do teatro Solís (Montevidéu, Uruguai - 2012)

Autor: Ivan Savioli Ferraz

 



Escrito por Ivan Ferraz às 19h51
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A eleição de Obama, o anti-imperialismo e a inveja.

Nos últimos dias fomos "bombardeados" com as notícias da eleição presidencial norte-americana, cujo vencedor foi o já presidente Barack Obama. Muitos devem se perguntar do porquê desta extensa cobertura por parte da imprensa internacional, incluindo, a brasileira. A maior parte das respostas caem no lugar-comum: a abrangente influência política e econômica dos Estados Unidos sobre o mundo, o imperialismo cultural a que somos submetidos, etc.

Por sua influência em praticamente todos os campos da vida política, econômica e cultural, os Estados Unidos são acusados de imperialistas nos quatro cantos do mundo. No Brasil não é diferente. Em passeatas de cunho político, especialmente em entidades consideradas de "esquerda", cartazes ou bordões contra o "imperialismo" americano são vistos ou ouvidos com relativa facilidade (além, é claro, da “tradicional” queima da bandeira, ato que, quase invariavelmente, propicia oportunidade para uma foto em algum jornal).

A pergunta do parágrafo inicial deste texto é carregada, em geral, por um certo desdém; entretanto, na sua essência, este desdém encobre um sentimento invejoso – muitas vezes – mal dissimulado (inconsciente?). Esta inveja é, na maioria das vezes, a gênese do sentimento antiamericano que floresce em todos os cantos do mundo. Serão os Estados Unidos os culpados de tudo? Claro, seria de uma simplicidade infantil acreditar em tal pensamento (para refletir um pouco mais a respeito deste assunto de “antiamericanismo”, sugiro a leitura da coluna do psicanalista Contardo Calligaris publicada no jornal Folha de São Paulo em 20 de setembro de 2001, intitulada “De onde vêm os terroristas”).

Não é incomum que as pessoas que chamam os americanos de imperialistas sejam as mesmas que aguardam ansiosamente o lançamento do último iPhone ou iPad ou aproveitam a oportunidade de uma viagem (própria ou a de um conhecido) aos Estados Unidos para trazer "aquele" produto cobiçado a preços mais honestos do que os praticados no Brasil. Ainda, podem ser as mesmas pessoas que se gabam de ter aquele vinil original do Elvis da década de 1950 guardado a quatro chaves em sua casa.

Em contraste, no filme "Tropicália", Caetano Veloso afirma que não aderiu ao antiamericanismo que vigorava na época entre os seus pares porque não via sentido naquilo tudo, já que ele gostava, entre outras coisas, da música norte-americana.

No campo pessoal, reconheço: nos arroubos ideológicos de minha juventude, também cheguei a ter estes pensamentos e explicações anti-imperialistas para os males do Brasil e da humanidade. Mas amava os The Doors, Janis Joplin, Bob Dylan e Marilyn Monroe e estudava Pediatria em livros americanos. Estranho (para não dizer, incoerente), não é?

Não quero fazer apologia pura e simplista dos Estados Unidos. Se de um lado eles possuem sólidas instituições democráticas e amplas liberdades individuais, o que poderia explicar, em parte, o seu grandioso desenvolvimento, não podemos desprezar suas mazelas. Como esquecer o (amplo) apoio da CIA na arquitetura de golpes de Estado e na manutenção de ditaduras ao redor do mundo em décadas passadas, em especial, na América Latina (incluindo a de nosso país em 1964)? E, num tempo mais atual, as torturas na prisão de Guantânamo?

Mas também, como não se lembrar do inegável desenvolvimento tecnológico (incluindo aí, os medicamentos) produzido nos EUA e exportado para o mundo, levando a melhorias que elevaram a qualidade e permitiram o aumento da expectativa de vida das pessoas? Alguns poderão ainda argumentar que, provavelmente, a exportação desta tecnologia possa ter custado muito aos cofres de alguns países, mas o fato é que ela está aí.

Não existe nada perfeito. Nem pessoas, nem nações. Reflitamos com isenção.

Até a próxima.

Dica cultural: Etta James! Como eu nunca havia prestado atenção antes nesta sensacional cantora de jazz, soul e blues? Janis Joplin, Amy Winehouse e Brittany Howard (Alabama Shakes) devem muito a ela. Simplesmente sensacional! Ah, sim. Ela era – vejam só - americana de Los Angeles e morreu em janeiro deste ano, cinco dias antes de completar 74 anos de idade.

 

Foto do dia

 

Final de tarde no Rio da Prata, Colônia do Sacramento, Uruguai (2012)

Autor: Ivan Savioli Ferraz

 

 



Escrito por Ivan Ferraz às 20h51
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Você é coerente e fiel?

Segundo o dicionário Houaiss, entre tantas definições, "coerência" seria a "uniformidade do proceder". E também neste dicionário, "aquele que denota constância de hábitos e atitudes" estaria uma dentre tantas definições de "fiel".

Pois bem: você é coerente e fiel? Com certeza, a maior parte das pessoas ditas normais responderia sem pestanejar que sim, principalmente no que diz respeito ao seu modo de pensar e, consequentemente, de seus atos.

Será mesmo? E ser permanentemente coerente e fiel às suas ideias seria, mesmo, uma virtude?

Vejamos. O mundo muda (para algumas pessoas, ele evolui; para outras, involui. Mas o fato é que ele muda). Há pouco mais de vinte anos o mundo era dividido, politicamente, em "esquerda" e "direita". Hoje estes conceitos ainda existem, mas há uma certa nebulosidade em defini-los ou entendê-los (fato: quem não viu nos jornais a foto de Lula cumprimentando Maluf há algumas semanas em busca de apoio à candidatura de Haddad para a Prefeitura de São Paulo? Quem é a "direita" e a "esquerda" ali?). Neste caso, qual seria a coerência de pensamento de um cidadão comum com mais de quarenta anos de idade e que, por exemplo, simpatizava com a esquerda há vinte anos? Manter-se fiel à "esquerda"? E seria algo bom? Mas, repare: é apenas um pequeno exemplo.

A verdade é que, a medida que envelhecemos (e, por conseguinte, ficamos mais sábios), tornamo-nos cada vez menos coerentes e fiéis aos nossos princípios; com toda certeza, eles não estavam cem por cento corretos e as nossas experiências vão mostrando, dolorosamente, isto. Talvez isto aconteça porque muitos destes princípios foram frutos de conceitos transmitidos numa época de nossa vida em que não possuíamos capacidade para discernir o que fosse verdade do que era fantasia; já outros princípios podem ter sido desconstruídos simplesmente porque "a fila andou" (e/ou o mundo mudou) e percebemos que o nosso pensamento e a nossa opinião já não são os mais adequados. Admitir que podemos mudar de opinião e que não somos, necessariamente, féis a determinadas ideias é uma virtude (não o contrário).

Mas você pode dizer que há algumas ideias universais que são absolutas e das quais nunca poderemos abrir mão, como por exemplo, a defesa da vida. Concordo, em parte. Explico: para nós, ocidentais, a vida realmente é um bem supremo (concordo), acima de todas as outras "coisas". Mas isto não é uma ideia universal e absoluta. Para muitas pessoas de civilizações orientais, a honra está acima da vida e esta pode ser suprimida para "resgatar" aquela.

Para finalizar, deixo uma sugestão de leitura: no dia 25/11/2010, em sua coluna semanal do jornal Folha de São Paulo, o psicanalista Contardo Calligaris abordou a respeito da questão da "coerência". Este texto pode ser encontrado facilmente na internet e é intitulado "A coerência é um valor moral?". Para atiçar a curiosidade, deixo aqui um pequeno trecho da referida coluna: "A coerência é o último refúgio de quem tem pouca fantasia e, talvez, de quem tem pouca coragem".


Em tempo: amanhã (19/8) é o Dia Mundial da Fotografia. Parabéns a todos os fotógrafos deste nosso sofrido planeta, sejam eles profissionais, amadores ou ocasionais!


Até a próxima!


Foto do dia


Andando por aí - II (Ribeirão Preto, 2012)

Autor: Ivan Savioli Ferraz 

 



Escrito por Ivan Ferraz às 22h58
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A geração beat

 

Há uns 10 dias assisti ao filme "On the road" ("Na estrada"), dirigido por Walter Salles, baseado no livro homônimo de Jack Keroauc. Tenho a certeza de que muitos já ouviram falar deste livro, o qual é considerado a Bíblia do movimento beat.

O movimento beat teve origem nos Estados Unidos no final de década de 1940 e início dos anos 1950. O mundo ainda se recuperava da Segunda Guerra Mundial e alguns jovens americanos decidiram lançar-se na estrada, vivendo alucinadamente todas as experiências possíveis e imagináveis. Sim, sexo, drogas e... jazz (o rock´n´roll ainda engatinhava nesta época)! Paralelamente a este paroxismo de experiências, muitos dos ícones do movimeno beat foram também escritores e relataram em prosa e poesia as suas experiências. 

Muitos consideram que o movimento beat constituiu-se na semente da geração hippie que floresceria um pouco mais de uma década depois no oeste americano e que se espalharia pelo mundo ocidental afora. Além disso, muitas bandas de rock foram influenciadas pelos beats, sendo os "The Doors" (do poeta e vocalista Jim Morrison), a mais conhecida.

Li "On the road" quando estava na faculdade (em 2007 foi lançada uma versão mais completa e explícita do icônico manuscrito de Kerouac, com a qual ainda não tive contato). E, assim como em muitas pessoas que o leram, este livro alimentou-me o sonho de viajar e registrar tudo o que se passava em volta. 

Não tive vontade (ou coragem/$$$?) de me tornar um viajante compulsivo como Kerouac, mas cultivei o gosto de registrar em fotos os lugares pelos quais visitei. Considero que grandes fotógrafos como Steve McCurry e Sebastião Salgado também são, na sua essência, beats, pois viajam muito e fotografam - com rara e singela beleza - o que presenciam.

Lembro-me que alguns meses depois de ler "On the Road", consegui um exemplar de "Uivo, Kaddish e outros poemas" de Allen Ginsberg, outro papa da geração beat. Pareceu-me revolucionário e diferente de tudo o que eu havia lido até então (dos meus livros, foi o mais emprestado aos colegas de faculdade - e, pasmem, ainda o possuo! -, tornando-se objeto "cult" da moçada mais antenada). Deste livro de Ginsberg - que também era fotógrafo -, o poema que mais me impressionou foi "America". Trancrevo abaixo os versos iniciais (apenas para um exercício íntimo: no poema, substitua a palavra "America" por qualquer outra coisa que o aborreça e leia-o para você mesmo).

 

AMERICA

"América eu lhe dei tudo e agora não sou nada.
América dois dólares vinte e sete centavos 17 de janeiro de 1956.
América não agüento mais minha própria mente.
América quando acabaremos com a guerra humana?
Vá se foder com sua bomba atômica.
Não estou legal não me encha o saco.
Não escreverei meu poema enquanto não me sentir legal.
América quando é que você será angelical?
Quando você tirará sua roupa?
Quando você se olhará através do túmulo?
Quando você merecerá seu milhão de trotskistas?
América por que suas bibliotecas estão cheias de lágrimas?
América quando você mandará seus ovos para a Índia?
Eu estou cheio das suas exigências malucas.
Quando poderei entrar no supermercado e comprar o que preciso só com minha boa aparência?
América afinal eu e você é que somos perfeitos não o outro mundo.
Sua maquinaria é demais para mim.
Você me fez querer ser santo.
Deve haver algum jeito de resolver isso."


Em tempo, uma dica cultural: ouça o CD "Boys & Girls" da banda americana "Alabama Shakes". Mistura de blues e rock´n´roll, possui na voz da carismática vocalista Brittany Howard um misto de Janis Joplin e Cássia Eller. Imperdível!

Até a próxima!

Foto do dia

 

Final de tarde em Salvador, Bahia (2011)

Autor: Ivan Savioli Ferraz



Escrito por Ivan Ferraz às 13h46
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